Alta dos juros nos EUA pode limitar efeito do corte da Selic no Brasil

O movimento dos juros nos Estados Unidos pode limitar os efeitos da redução da Selic sobre o crédito no Brasil. Enquanto o Banco Central brasileiro reduziu a taxa básica de 14% para 13,75% ao ano, o Federal Reserve (Fed) seguiu na direção contrária e elevou os juros americanos em 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano.
A decisão do Fed, anunciada na quarta-feira (16), representou a primeira alta dos juros americanos desde julho de 2023.
Além da taxa básica, os juros dos títulos de longo prazo do Tesouro americano permanecem elevados. Em 16 de setembro, os papéis com vencimento em dez anos chegaram a 4,45% ao ano. Juros elevados nos Estados Unidos aumentam a atratividade dos ativos americanos e podem pressionar as condições financeiras em mercados emergentes, como o Brasil.
Para Victor Hugo Del Angelo, especialista em estratégia patrimonial, de Rio Preto, o cenário exige cautela ao interpretar a trajetória de queda da Selic.
“Na minha leitura, o Brasil começa a reduzir juros justamente quando o mundo volta a encarecer o dinheiro. Por isso, uma queda de 0,25 ponto na Selic não significa que o financiamento imobiliário ou o crédito empresarial ficará imediatamente mais barato.”
Financiamentos de longo prazo não dependem apenas da Selic. Inflação esperada, risco do país, dólar, juros futuros e custo de captação dos bancos também entram na formação das taxas oferecidas ao consumidor e às empresas.
“Até o fim do ano, eu trabalharia muito mais com a ideia de dinheiro um pouco menos caro do que com dinheiro barato”, afirma Del Angelo.
Mercado imobiliário de Rio Preto
A discussão ganha relevância em Rio Preto. Segundo o Secovi-SP, o mercado imobiliário da cidade movimentou aproximadamente R$ 454 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) no primeiro trimestre de 2026, crescimento de cerca de 26% em relação ao mesmo período do ano passado.

Para Del Angelo, o desempenho do setor também mostra o risco de deixar uma decisão patrimonial condicionada exclusivamente às próximas reuniões do Banco Central.
“Eu vejo muita gente dizendo que vai comprar quando a Selic cair. Mas quanto ela precisa cair para aquela decisão realmente mudar? E quanto custa continuar esperando? Essas perguntas são tão importantes quanto saber qual será a próxima taxa.”
A mesma avaliação vale para empresários. Usar todo o caixa em uma aquisição apenas para evitar juros pode comprometer recursos necessários à operação.
“Preservar liquidez também tem valor. Antes de escolher entre financiamento, recursos próprios ou consórcio, eu analisaria prazo, objetivo, necessidade de caixa e custo de oportunidade.”
Para Del Angelo, decisões patrimoniais não devem depender apenas de previsões sobre os próximos movimentos dos juros.
“Minha preocupação é ver pessoas esperando a ‘Selic perfeita’ enquanto o mercado continua andando. Estratégia não é acertar o que o Banco Central fará. É tomar uma decisão que continue fazendo sentido mesmo se a previsão estiver errada.”











Comentários