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Uma universidade antes de ser uma universidade

  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Aos 69 anos, o Ibilce lembra que sua origem não está apenas nos decretos, mas no desejo de uma cidade inteira

João Paulo Vani, para o Portal Guilherme Baffi

Em 1955, São José do Rio Preto não era, ainda, aquilo que hoje reconhecemos como um centro educacional consolidado. Havia comércio, havia circulação, havia um certo dinamismo econômico que já a diferenciava de outras cidades do interior paulista — mas faltava algo decisivo: a possibilidade de permanecer. Permanecer para estudar, permanecer para pensar, permanecer para construir uma trajetória intelectual sem que isso implicasse, necessariamente, a partida. Para uma geração inteira, estudar significava ir embora. E ir embora, naquele tempo, não era apenas deslocar-se: era romper.

É nesse ponto que a história deixa de ser administrativa e passa a ser, de fato, histórica. A criação da Universidade Municipal de São José do Rio Preto, pela Lei nº 394, de 26 de maio de 1955, sancionada pelo prefeito Philadelpho Gouveia Netto, costuma aparecer como marco inaugural — e é, sem dúvida, um documento fundamental. Mas talvez seja mais preciso dizer que ali se formaliza algo que já estava em curso. A lei não cria o desejo; ela o reconhece. E o faz de maneira curiosamente avançada para a época, ao prever uma estrutura que incorporava não apenas o poder público, mas também entidades da sociedade civil, associações profissionais, setores organizados da cidade. Como se, desde o início, estivesse claro que aquela universidade não poderia ser apenas estatal: ela precisaria ser, de algum modo, coletiva.

Os relatos do período ajudam a entender melhor a importância desse avanço. A sessão da Câmara que aprovou a criação da universidade não foi um ato protocolar, desses que passam despercebidos fora dos registros oficiais. Havia estudantes presentes, havia expectativa, havia, ao que tudo indica, uma atmosfera de conquista iminente. Conta-se que, após a aprovação, o professor e vereador Daud Jorge Simão — figura central nesse processo — foi carregado nos ombros pelos jovens. A imagem pode parecer excessiva à primeira vista, quase teatral, mas talvez seja justamente por isso que ela importa: porque revela o grau de identificação entre uma instituição que ainda mal existia e aqueles que já a reconheciam como necessária.

Curiosamente, a UMURP, tal como concebida, não se sustentaria. Não atendia às exigências formais para uma universidade, e o projeto precisou ser reconfigurado quase de imediato. Surge então a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a FAFI, que passa a operar dentro das possibilidades jurídicas disponíveis. Há aqui uma inflexão interessante: aquilo que poderia ser lido como fracasso — a impossibilidade de implantação plena da universidade — revela, na verdade, uma espécie de inteligência institucional. Ajusta-se a forma para preservar o conteúdo. A ideia permanece, mesmo que o nome mude.

Dois anos depois, em abril de 1957, a aula inaugural, realizada no Cine Rio Preto, marca o início efetivo das atividades. O fato de ter ocorrido em um cinema, e não em um espaço acadêmico propriamente dito, não é um detalhe irrelevante. Ao contrário: diz muito sobre o estágio daquele projeto e, ao mesmo tempo, sobre sua dimensão pública. O cinema lotado, a presença da comunidade, as autoridades — tudo isso compõe uma cena que ultrapassa o rito acadêmico. Ali, mais do que abrir cursos, a cidade parecia celebrar a si mesma, como se dissesse, em ato, que estava pronta para produzir o próprio conhecimento.

A partir daí, a trajetória segue, como costuma acontecer com instituições que conseguem atravessar o tempo: com ajustes, expansões, mudanças de sede, transformações curriculares. A FAFI, inicialmente municipal, é estadualizada, ganha novas condições de funcionamento, amplia sua atuação. Até que, em 1976, com a criação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, é incorporada a uma estrutura maior e passa a se chamar Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas — o Ibilce. O que antes era um projeto local passa a integrar uma universidade multicampi, inserida em uma lógica mais ampla de produção científica.

Mas talvez o mais interessante seja perceber que, apesar dessas mudanças de escala, algo do gesto inicial permanece. O Instituto cresce, diversifica suas áreas, consolida programas de pós-graduação, participa de pesquisas de alcance internacional, dialoga com agendas científicas complexas — e, ainda assim, continua sendo, de certo modo, expressão daquela mesma necessidade que o originou. A de que uma cidade não pode depender exclusivamente de centros externos para pensar a si mesma.

Ao olhar para esse percurso, não se trata apenas de recuperar fatos, datas ou nomes próprios. Como lembra Paul Ricoeur, toda narrativa histórica é também um gesto de configuração: não apenas reconstituímos o passado, mas organizamos seus fragmentos de modo a produzir sentido no presente. Dessa forma, a história do Ibilce não é apenas aquilo que aconteceu, mas aquilo que, ao ser narrado, revela uma coerência — a persistência de uma ideia que atravessa diferentes formas institucionais sem perder sua direção fundamental.

Hoje, ao completar 69 anos desde aquela aula inaugural no Cine Rio Preto, o Ibilce pode ser descrito por números, rankings, indicadores de produção, redes de pesquisa. Tudo isso é importante, sem dúvida. Mas há um risco silencioso aí: o de reduzir a universidade àquilo que ela apresenta no presente, esquecendo o modo como ela se tornou possível. Porque universidades não surgem apenas quando são criadas. Elas surgem quando passam a ser imaginadas como necessárias.

E talvez seja esse o traço mais persistente dessa história. Antes de existir como instituição, antes de ocupar prédios, antes de formar turmas, antes de produzir ciência, aquela universidade já existia como ideia compartilhada. Não uma ideia abstrata, mas concreta o suficiente para mobilizar uma cidade inteira. Ao lembrar disso, os 69 anos deixam de ser apenas uma data comemorativa e passam a funcionar como um convite: o de reconhecer que toda instituição viva carrega, em alguma medida, a memória de um desejo coletivo que a antecede — e que, se esquecido, pode também deixá-la sem rumo.

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